O debate político e econômico brasileiro frequentemente utiliza a Argentina como um espelho—seja como um modelo a ser evitado ou um exemplo a ser seguido. Recentemente, a situação do país vizinho sob o governo de Javier Milei voltou ao centro das discussões, com críticos apontando para o aumento da pobreza e a suposta destruição da economia através da política da "motosserra". No entanto, uma análise fria dos dados oficiais do INDEC (Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina) revela um panorama muito diferente do que o discurso superficial tenta vender.
O choque macroeconômico inicial de Milei, que incluiu a desvalorização cambial necessária para reconhecer o valor real do peso, de fato gerou um pico inflacionário e aumento da pobreza nos primeiros meses. Contudo, a herança recebida de Alberto Fernández era a de uma economia à beira da hiperinflação, com salários reais em queda livre e cofres públicos devastados. Ao implementar um rigoroso controle orçamentário e atingir superávits fiscais consecutivos, o atual governo conseguiu estabilizar o risco-país e reverter a tendência de alta desenfreada da inflação.
A REALIDADE DA ECONOMIA ARGENTINA: O QUE OS DADOS DIZEM SOBRE O GOVERNO MILEI
No fervor do debate político, narrativas frequentemente se sobrepõem aos fatos. Uma das críticas mais repetidas no cenário atual é a de que a política econômica de Javier Milei estaria devastando a Argentina, com a pobreza e o desemprego saindo de controle após o uso da sua famosa "motosserra" de corte de gastos. Mas o que as estatísticas oficiais realmente mostram quando olhamos além das manchetes e contextualizamos a história econômica recente do país?
A HERANÇA MALDITA E O CHOQUE NECESSÁRIO
Para entender a Argentina de hoje, é preciso olhar para a Argentina de ontem. Quando Javier Milei assumiu a presidência em dezembro de 2023, o país trilhava a passos largos o caminho da hiperinflação. O governo de Alberto Fernández entregou um cenário de descalabro fiscal, com a emissão descontrolada de moeda pelo Banco Central para bancar uma máquina pública insustentável. A inflação anual batia a marca de 161%, e a pobreza, que no governo de Mauricio Macri (2017) estava em cerca de 25,7%, encerrou 2023 atingindo o alarmante pico de 42%.
Milei não tinha um "leque de alternativas" suaves. Sem dinheiro em caixa, o choque de estabilização macroeconômica foi brutal, mas inevitável. A desvalorização do peso argentino — na verdade, o reconhecimento da taxa de câmbio real praticada no mercado paralelo — gerou um pico de inflação de 25,5% apenas em dezembro. Como consequência direta, a pobreza subiu no curtíssimo prazo.
No entanto, a fotografia recente já indica uma inversão de tendência. No último semestre avaliado, a pobreza recuou para 32,3%, patamar inferior ao pior momento do governo anterior, e a inflação mensal vem caindo sistematicamente, já registrando taxas abaixo de 2% (como no mês de setembro), um feito que a Argentina não via há vários anos.
O DESEMPREGO E O AJUSTE NO SERVIÇO PÚBLICO
Outra acusação frequente é a disparada do desemprego. Historicamente, os dados mostram que a taxa de desocupação subiu ligeiramente (para 7,9%), mas permanece em patamares muito inferiores aos registrados nos piores momentos dos governos Fernández e Macri.
Onde a motosserra realmente passou? A resposta está no salário real, com uma distinção fundamental. Enquanto o salário real do setor privado estancou a sangria e ensaia uma estabilização, a grande queda ocorreu nos rendimentos do setor público nacional. O ajuste fiscal de Milei recaiu de forma contundente sobre as obras públicas, subvenções insustentáveis e na corrosão, via inflação, da folha de pagamentos da máquina estatal — a "casta" política que, na visão do presidente, financiou seus excessos às custas do empobrecimento geral da população.
A DISCIPLINA FISCAL COMO PILAR
A principal mudança de paradigma na Argentina atual é a inegociável busca pelo superávit fiscal. Desde seu segundo mês de governo, Milei vem entregando resultados primários e nominais positivos, algo historicamente atípico para o país. Ele tem atacado a raiz da doença econômica argentina: a gastança estatal financiada por impressão de dinheiro.
O resultado primário reflete essa disciplina orçamentária obsessiva, que rendeu até mesmo elogios do Fundo Monetário Internacional (FMI) e uma drástica redução do risco-país (que despencou para menos de 1000 pontos básicos, após amargar patamares acima de 2300 pontos).
O DESAFIO INACABADO E O ALERTA PARA O BRASIL
Claro que o trabalho está longe do fim. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ainda engatinha, e a economia sente os impactos recessivos de um ajuste tão profundo. Além disso, a inflação anual segue em níveis altos (acima de 30%), refletindo desafios contínuos no controle dos agregados monetários.
O maior risco que a Argentina corre hoje é o retrocesso institucional — a chance de um retorno ao populismo macroeconômico da esquerda, que poderia desfazer as reformas antes que elas entreguem o crescimento estrutural sustentado.
O caso argentino serve como um alerta cristalino para a política econômica brasileira. O descontrole das contas públicas, a promessa de benefícios populistas sem fonte de receita e a leniência orçamentária levam, invariavelmente, à corrosão da moeda, disparada da inflação e empobrecimento generalizado. O Brasil precisa observar os erros e os drásticos remédios da Argentina para não precisar aplicar a mesma "motosserra" em um futuro próximo. A estabilidade de amanhã exige a responsabilidade fiscal de hoje.
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